Texto: Internalização das funções psicológicas superiores, Lev Vygotsky - A formação social da mente
Lev Vygotsky apesar de ter sua formação em Direito teve uma grande influência no campo da psicologia através de suas pesquisas onde acreditava que o desenvolvimento intelectual está ligado as interações sociais e as condições de vida.
Podemos definir como funções psicológicas superiores ou processos mentais atividades cerebrais como lembrar de algo, fazer comparações, reflexões e etc... inerentes dos seres humanos. Tais atividades são definidas como reflexos condicionados, pois o cérebro, mais precisamente o córtex cerebral, analisa e processa um conjunto de condições possíveis para se realizar uma determinada ação.
Lev Vygotsky investigou como o uso de signos e instrumentos se articulam no desenvolvimento cultural da criança e propôs três condições para esta articulação. A primeira diz respeito a situação análoga existente entre signo e instrumento, a segunda trata das suas diferenças e a terceira tenta demonstrar o elo psicológico existente entre as duas.
A analogia existente entre o uso de signos e instrumentos é justamente a função mediadora que eles exercem as atividades. Os signos atuam como mediadores de atividades psicológicas (lembrar, comparar, etc...) e os instrumentos mediam o trabalho do homem. Estas definições estão ligadas a um conceito maior que chamamos de atividade mediada como mostra a imagem.
Podemos exemplificar o uso de signos ligado a uma atividade mediada com o exemplo de se atar um nó com um pedaço de pano no dedo. O signo atribuído ao nó serve como mediador na atividade de lembrar algo. Já um machado como instrumento extende a capacidade da mão humana em cortar uma árvore.
A segunda condição colocada por Vygotsky determina que a diferença essencial entre signos e instrumentos é que os signos são operações internas e não mudam o objeto da atividade. Ou seja, atar um nó no dedo não muda o que a pessoa tem que lembrar porém estabelece uma ligação que auxilia a memória para recuperar informações. Já os instrumentos são orientados para operações externas e necessariamente levam a alterações no objeto da atividade. Usar um machado para derrubar uma árvore.
Por último temos o elo psicológico entre as duas atividades que consiste na ligação entre os seus desenvolvimentos na filogênese e ontogênese. Esta ligação ocorre com base no desenvolvimento da espécie humana (filogenia) e no desenvolvimento individual proporcionado pelas interações do homem com o meio físico e social. Estes processos ocorrem mutuamente, visto que o homem ao alterar a natureza ele também altera a natureza do próprio homem. Podemos exemplificar com os nossos ancestrais na idade da pedra. Com a criação de uma lança com uma pedra pontiaguda foi possível extender a capacidade de caça. Isso altera também a natureza do homem no que diz respeito a forma que ele irá caçar e cria um ambiente para se pensar como retirar a pele do animal por exemplo. Neste momento é possível que o indivíduo tenha internalizado o significado de uma lança e isso passa a ser um conceito em sua mente. E assim vão se criando relações sociais e individuais cada vez mais complexas.
Vygotsky chama de internalização a reconstrução interna de uma operação externa. Tomemos o estágio inicial de um bebê e o desenvolvimento do gesto apontar. Ao levantar o braço para pegar algo que está fora do seu alcance o bebê estabelece uma operação puramente externa. Quando a mãe vê este movimento e entrega o objeto para o recém-nascido ele entende que a ação de tentar pegar algo desencadeou uma resposta de outra pessoa. Neste momento a tentativa malsucedida de pegar um objeto se transforma em um movimento intencional dirigido a outra pessoa transformando o ato de pegar no gesto de apontar. A internalização de conceitos não é uma tarefa simples e exige demasiado esforço para ocorrer. Existem operações em que o estágio de atividade externa dura para sempre.
Este processo pode ser descrito em três etapas:
- Uma operação que inicialmente representa uma atividade externa é reconstruída e começa a ocorrer internamente;
- Um processo interpessoal é transformado num processo intrapessoal;
- A transformação de um processo interpessoal num processo intrapessoal é o resultado de uma longa série de eventos ocorridos ao longo do desenvolvimento.
O que procuramos compreender em nossa pesquisa com o projeto UCA é como pode ser realizada uma tarefa no computador que viabilize a internalização de conceitos pelas crianças aprendidos na escola. Ou seja, como fazer uma criança aprender a somar tendo uma atividade mediadora no computador que forneça uma maneira alternativa ao aprendizado.

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